Terapia da Fala e o Autismo

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Os problemas de comunicação das crianças autistas podem ter uma grande variação e podem depender do desenvolvimento social e intelectual do indivíduo. Alguns podem ser completamente incapazes de falar enquanto outros tem um vocabulário bem desenvolvido e podem falar sobre uma série de tópicos do seu interesse. Qualquer programa terapêutico deve começar pelo ponto em que as habilidades linguísticas da criança se encontra.

Embora algumas crianças autistas tenham pouco ou nenhum problema com a pronúncia das palavras, a maioria tem efetivamente dificuldades em utilizar a linguagem. Até aquelas crianças que não tem problemas em articular as palavras, exibem dificuldades no uso da linguagem pragmática como saber o que dizer, como dizer e quando dizer tanto quanto interagir socialmente com as pessoas. Muitos que falam, dizem coisas sem contexto ou informação. Outros repetem o que ouviram (ecolalia) ou discursos que memorizaram em algum momento. Algumas crianças autistas falam cantando ou usando uma voz mecânica como se fossem robôs.

Terapia da Fala ou Fonoaudiologia

A Terapia da Fala é a ciência que tem como objeto de estudo a comunicação humana, no que se refere ao seu desenvolvimento, aperfeiçoamento, distúrbios e diferenças, em relação aos aspectos envolvidos na função auditiva periférica e central, na função vestibular, na função cognitiva, na linguagem oral e escrita, na fala, na fluência, na voz, nas funções orais/faciais e na deglutição.

A intervenção precoce e continuada do terapeuta da fala nos Distúrbios do Desenvolvimento, é fundamental para que o quadro clínico apresentado pelos indivíduos portadores do Transtorno Autista evolua satisfatoriamente, no que tange à sua comunicação geral, e em especial, para o desenvolvimento de sua linguagem receptiva e expressiva, oral, gestual e escrita, capacitando–o para compreender, realizar demandas e agir sobre o ambiente que cerca.
Entretanto, o profissional deve ser um profundo conhecedor do desenvolvimento normal infantil/juvenil e do desenvolvimento atípico do portador de autismo. Também deve ser capaz de diagnosticar, avaliar (porque é possível avaliar os autistas, sim, mesmo os não-verbais!), e planear uma terapia individualizada e específica. Deve ser um profissional atualizado e consonante com a comunidade científica internacional, e nunca se deixar levar por novidades e idéias que não têm o menor valor científico (como as dos anos 60: mães geladeira, e dos anos 70: autismo = psicose!!!).

A terapia da fala poderá ter como base, o programa TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Communication handicapped Children), desenvolvido pelo departamento TEACCH da Universidade da Carolina do Norte, USA. Também poderá utilizar o recurso PECS (Picture Exchange Communication System), o ABA (Applied Behavior Analysis), e as técnicas de intervenção de Lovaas, sempre com vista ao treino e desenvolvimento da linguagem e da comunicação.

Embora nenhum tratamento seja efetivo em normalizar a fala, os melhores resultados são conseguidos com o início da terapia na idade pré-escolar e que envolve a família junto com os profissionais. O mérito é conseguir que a criança utilize a comunicação funcional, ou seja, que a criança se faça entendida. Para uns a comunicação verbal é possível e alcançável. Para outros, a comunicação por gestos ou por utilização de símbolos ou figuras já é de grande valia. Avaliações periódicas devem ser feitas para encontrar as melhores abordagens e restabelecer as metas de cada criança.

O que nos pede um Asperger?

autismo- sindrome de asperger

  1. Ajuda-me a compreender. Organiza meu mundo e ajuda-me a prever o que vai acontecer. Dá-me ordem, estrutura e não caos.
  2. Não fique angustiado, pois isto também me angustia. Respeita meu ritmo. Se compreenderes minhas necessidades e meu modo especial de ver a realidade, não terás dificuldades de te relacionares comigo. Não te deprimas; o normal é eu progredir e me desenvolver cada vez mais.
  3. Não fales muito, nem depressa demais. Para ti as palavras voam como plumas, não pesam, mas para mim podem ser uma carga pesada. Muitas vezes é esta a melhor maneira de te relacionares comigo.
  4. Como todo ser humano, sinto necessidade de compartilhar o prazer e gosto de fazer bem as coisas, embora nem sempre consiga.
  5. Preciso de mais ordem do que tu, e mais do que tu, preciso prever as coisas do meu meio. Precisamos negociar meus rituais de convivência.
  6. Para mim é difícil compreender o sentido de muitas coisas que me pedem para fazer. Ajude-me a compreender. Procura pedir-me coisas que tenham sentido completo e decifrável para mim. Não deixe que eu me embruteça e fique inativo.
  7. Te envolvas comigo, embora eu tenha reações de irritação.
  8. O que eu faço não é contra ti. Quando fico irritado ou me firo; quando quebro alguma coisa ou me agito demais; quando tenho dificuldade de fazer o que me pedes, não estou querendo te aborrecer. Porque tenho um problema de intenções. Não me atribua más intenções!!
  9. Meu desenvolvimento não é irracional, embora não seja fácil de entender. Tem sua própria lógica, e muitas das condutas que chamas de “alteradas” são formas de enfrentar o mundo com minha forma especial de ser e perceber. Faze um esforço para me compreenderes.
  10. As outras pessoas são muito complicadas. Meu mundo não é complexo nem fechado, é um mundo simples. Embora possa parecer estranho o que eu te digo, meu mundo é aberto, tão sem embustes e mentiras, tão ingenuamente exposto aos outros que é difícil penetrar nele. Não vivo numa “fortaleza vazia”, mas numa planície tão aberta que pode parecer inacessível. Sou muito menos complicado do que as pessoas que considera normais.
  11. Não sou apenas um ser com dificuldades. Sou também uma criança, um adolescente ou um adulto. Partilho muitas coisas das crianças, dos adolescentes que chamas de “normais”. Gosto de brincar e me divertir, gosto dos meus pais e das pessoas que me cercam; fico contente quando faço bem as coisas. Na minha vida há mais o que compartilhar do que separar.
  12. Vale a pena viver comigo. Posso te proporcionar tanta satisfação como as demais pessoas. Pode acontecer em momento em tua vida em que eu possa ser a sua maior e melhor companhia.
  13. Não me agrida quimicamente. Se te disserem que preciso tomar medicamentos, providencie o acompanhamento periódico por um especialista.
  14. Nem meus pais nem temos culpa do que se passa comigo. Tão pouco são culpados os profissionais que me ajudam. Não adianta culpar uns aos outros. Às vezes minhas reações e condutas podem ser difíceis de entender e suportar, mas não é por culpa de ninguém. A idéia de “culpar” não faz mais do que produzir sofrimento com relação ao meu problema.
  15. Não me peças constantemente coisas que estão fora de meu alcance, de minha possibilidade. Pede-me, porém as que sou capaz de fazer. Ajude-me a ter mais autonomia para compreender melhor, comunicar-me melhor, mas não me ajude demais.
  16. Não precisa mudar completamente sua vida pelo fato de viver com uma pessoa como eu. A mim nada aproveita o estares mal, que te feches e que te deprimas. Preciso de estabilidade e de bem-estar emocional em torno de mim para me sentir melhor. Não pense tão pouco que eu tenha culpa do que se passa comigo.
  17. Ajude-me com naturalidade, sem tornar essa ajuda uma obsessão. Para me ajudar, precisas ter teus momentos de repouso ou de te dedicares a tuas próprias atividades. Fica perto de mim, não te vás, mas não te sinta sob o peso de uma carga insuportável. Na minha vida tem havido momentos difíceis, mas posso estar cada vez melhor.
  18. Aceita-me como sou. Não condicione tua aceitação a que eu deixe de ser como sou. Sê otimista sem te tornares “romântico”. Minha situação em geral tende a melhorar.
  19. Embora seja difícil comunicar-me ou compreender as sutilezas sociais, na realidade, tenho algumas vantagens na comparação com os que te chamas de “normais”. Tenho dificuldade em me comunicar, mas não costumo enganar. Minha vida poderá ser satisfatória se for simples, ordenada e tranqüila, desde que não me façam constantes exigências, mudanças e só me peçam as coisas mais difíceis para mim. Ser especial é um modo de ser, embora não seja o comum. Minha vida pode ser tão feliz e satisfatória como a tua vida “normal”. Nessas vidas podemos vir a nos encontrar e a partilhar muitas experiências.

Angel Riviere Gómez, Psiquiatra – Acessor Técnico de APNA – Madrid – Espanha

olhardeverdadeO trabalho de Ehlers & Gillberg , realizado nas escolas de 1 o grau de uma cidade com predominância de classe média, revelou taxa de 0,36% da população em geral na proporção de 4 homens para 1 mulher. Importante perguntas inadequadas as pessoas não conhecidas; histórico familiar de quadros similares, usualmente na linhagem masculina. ao exame: andar desajeitado; postura bizarra de braços e mãos; pouco olhar para o interlocutor; mímica facial e corporal pobre e dissociada da conversa; afetividade superficial; afetividade plana (um paciente referia que nada o irritava e que nada o incomodava, outro foi encaminhado para avaliação porque não demonstrou reação ao falecimento da mãe);voz com pouca ou sem modulação (robotizada); fala rebuscada sem a compreensão devida dos termos; persistência no assunto de seu interesse; dificuldade de compreender piadas; compreensão superficial de significados abstratos (p.ex: diferença entre colega e amigo); dificuldade de compreensão do significado de frase quando o diferencial é o tom da voz; ruminações e preocupações ilógicas, para os não afetados; percepção de que é diferente dos colegas e irmãos (a partir da pré-adolescência); conhecimento desproporcional em algum assunto – interesse específico (que pode variar com o tempo); pedantismo ( pelo dicionário Aurélio: “aquele que ostenta erudição que não possui, de forma afetada, livresca, rebuscada”); sintomas obsessivos (que inclusive o incomodam); humor deprimido; memória muito boa, as vezes fotográfica; dificuldade na narrativa de fatos vividos, etc. escalas: iniciar com os itens da CID-10, se o quadro for de grau leve ou houver dúvidas no 1 º passo, fazer o CARS. Descartado o AI proceder ao ASSQN. Para uma melhor qualidade realizar o ADI-R.

O que é Síndrome de Asperger (SA)?

ignoranciaA Síndrome de Asperger é um transtorno de múltiplas funções do psiquismo com afetação principal na área do relacionamento interpessoal e no da comunicação, embora a fala seja relativamente normal. Há ainda interesses e habilidades específicas, o pedantismo, o comportamento estereotipado e repetitivo e distúrbios motores. A Síndrome de Asperger (SA) é uma das entidades categorizadas pela CID-10  no grupo dos Transtornos Invasivos, ou Globais, do Desenvolvimento – F84 e que todas elas iniciam invariavelmente na infância e com comprometimento no desenvolvimento além de serem fortemente relacionadas a maturação do SNC. Pode-se dizer também que desse grupo (Autismo Infantil, Autismo Atípico, a Síndrome de Rett e outros menos relevantes) a SA é o transtorno menos grave do continuum autístico . Como já foi claramente definida em outro capítulo deste livro, não me aterei a tais questões.

O Autismo Precoce Infantil

Autismo Precoce Infantil

A SINTOMATOLOGIA DO AUTISMO PRECOCE INFANTIL

A sintomatologia do A.P.I. varia consideravelmente de caso para caso, podendo afirmar-se , não haver dois casos totalmente sobreponíveis. O A.P.I. predomina no sexo masculino e o seu diagnóstico só muito raramente é feito antes dos 2 anos. Contudo, a história cuidadosa do comportamento anterior permites verificar retrospectivamente alterações na maior parte dos casos. As mais importantes são as relacionadas com a alimentação. Algumas crianças têm a maior dificuldade em se alimentarem devido a movimentos deficientes da deglutição, pelo que, em casos raros, foi necessária a intubação por total impossibilidade de manter as crianças vivas por outros meios. Na maior parte dos casos, apesar da dificuldade na sucção e deglutição conseguem alimentar-se devido aos cuidados constantes e intensos das mães. Esta sintomatologia melhora e eventualmente desaparece, entre os 3 e os 4 meses de idade. Por vezes persiste, mantendo-se ainda na idade escolar, observando-se movimentos anormais de deglutição, o que em alguns casos não condiciona alteração do tipo de alimentação, mas noutros leva à recusa de alimentação sólida.

Alguns bebês autistas são anormalmente calmos e não exigentes, não chorando nem mesmo quanto têm necessidade de alimentação, enquanto outros são anormalmente difíceis, com hábitos irregulares de alimentação e de sono e com períodos de choro incontrolável. O seu corpo é por vezes rígido, enquanto outros permanecem molemente nos braços das mães e não reagem ao carinho maternal.

Do ano e meio em diante falta muitas vezes a curiosidade que normalmente procede o aparecimento da linguagem – a investigação do meio ambiente, dos brinquedos, dos objetos familiares, etc. Utilizam os objetos ou brinquedos diferentemente das crianças da mesma idade e aparentemente apenas pelo prazer de os manusearem. Não apontam para objetos, nem se debruçam do carrinho quando nele são conduzidos.

Inicia-se, por vezes, neste período, o hábito de se balançarem, ou de bater ritmicamente com a cabeça na parede ou num móvel e o de frequentemente arranharem superfícies ásperas, aparentemente para apreciarem o som resultante.

Os marcos do desenvolvimento motor são normais ou pouco atrasados, excepto quando há alterações neurológicas relevantes. No entanto, algumas crianças só conseguem gatinhar ou andar se para tal forem ensinadas.

É frequente sorrirem e rirem na idade normal, mas estas manifestações não são, geralmente, provocadas por verem os pais, mas sim pelo contacto físico ou mediante cócegas. Muitos pais relatam que os filhos não levantam os braços antes de serem pegados ao colo, nem demonstravam qualquer interesse em serem levantados do berço. Outros contam que durante a segunda infância gritavam e choravam sem lágrimas.

Num terço dos casos os pais não notaram qualquer alteração durante a maior parte da primeira infância, cujo desenvolvimento foi aparentemente normal até surgir a mudança gradual ou súbita. Neste caso, o indício da sintomatologia pode ter sido precedido por algum acontecimento bem definido, tal como uma infecção, um acidente, ou o nascimento de um irmão.

É normalmente depois dos dois anos que o síndrome se estabelece em toda a sua extensão e gravidade. Entre os dois e os cinco anos o comportamento da criança autista é particularmente difícil.

Os elementos do síndrome podem ser divididos em dois grupos; os relacionados com os problemas subjacentes de compreensão e motores e os relacionados com o comportamento perturbado (provavelmente secundários àqueles).

1º GRUPO – DEFICIÊNCIAS PROVAVELMENTE PRIMÁRIAS

a) Resposta anormal a sons: a criança autista tem, frequentemente, resposta paradoxal a sons; ignora alguns, muitas vezes intensos; a outros reage com sofrimento o que a leva a tapar os ouvidos, a gritar e a chorar; mostra-se fascinada com certos sons, tais como a fricção de um brinquedo sobre uma superfície rugosa e pode passar horas absorvida nesta atividade.

b) Deficiências ou ausência de compreensão da linguagem verbal: a criança autista não demonstra qualquer interesse, durante os primeiros anos de vida quando se lhe dirige a palavra e não volta a cabeça quando chamada, o que leva frequentemente à suspeita de surdez. Quando se torna evidente que esta suspeita não tem fundamento, é habitual os técnicos menos informados julgarem que a criança recusa deliberadamente prestar atenção à linguagem. A compreensão da linguagem tende a aumentar lentamente com a idade e mediante ensino especializado.

Na apreciação da compreensão da criança autista mais crescida, há dois tipos de erros frequentes; um é julgar que a criança compreende menos do que realmente compreende; o outro é, naturalmente o contrário; julgar que a compreensão é quase completa mas que ela recusa deliberadamente manifestar essa compreensão. Estudos controlados provam que em cada caso particular a compreensão é superior à aparente, mas que há deficiências importantes, objetivadas por enganos no cumprimento de ordens seriadas e estruturadas. As alterações encontradas neste campo particular são muito semelhantes às observações na afasia congênita receptiva.

c) Anomalias no uso da linguagem: algumas crianças nunca adquirem qualquer linguagem e permanecem para sempre mudas. Outras iniciam a linguagem na idade adequada, a qual desenvolve-se normalmente durante meses. Pouco a pouco o progresso suspende-se e inicia-se regressão lenta, o que se manifesta pela redução das palavras polissilábicas para monossilábicas e para pronúncia mais infantil. Tornam-se pouco a pouco menos comunicativas. Posteriormente, há redução no número de palavras e mergulham lentamente no mutismo.

Em alguns destes casos a linguagem reaparece mais tarde. Por vezes não se atinge a fase de mutismo completo, mas o desenvolvimento da linguagem é extremamente lento e defeituoso. Nas crianças que adquirem alguma linguagem são frequentes os defeitos seguintes: ecolalia imediata (repetição da parte final da frase acabada de ouvir, por vezes com entoação idêntica), o que para muitas crianças constitui, para sempre a única forma de linguagem: ecolalia tardia (repetição da palavra ou frases ouvidas dias, meses ou anos, antes); linguagem telegráfica, inversão de pronomes, confusão no uso de palavras cujo significado ou cujo som sejam próximos, troca de letras nas palavras ou de palavras nas frases, linguagem metafórica, imaturidade no discurso espontâneo, (embora possa haver frases completas, usadas adequadamente, mas que foram aprendidas na totalidade por mecanismo ecolálico).

Em casos raros há progresso considerável da linguagem, a qual, porém, só em 15% atinge a normalidade. Naqueles casos, usam linguagem muito concreta e parecem incapazes de compreender as subtilezas e a variação do significado das palavras.

d) Problemas de pronúncia e entoação: embora algumas crianças tenham voz e pronúncia normais, a maioria tem alterações importantes. Em alguns casos, voz monocórdica, descrita habitualmente como voz mecânica, ou ao contrário, controlo deficiente da voz com alternância de tom rouco, tom de falsete, voz viciada, tom próximo do normal, etc. São também frequentes, oscilações da intensidade da voz, produzindo algumas sílabas gritadas e outras apenas audíveis ou mesmo inaudíveis. É muito frequente acentuação em sílabas erradas, bem como a ênfase em locais errados da frase. No conjunto a sensação é muito estranha.

e) Dificuldade em imitar movimentos finos e complicados: algumas crianças são graciosas e elegantes nos seus movimentos espontâneos, mas mais frequentemente são desajeitadas, o que é particularmente nítido quando correm em espaços abertos ou executam movimentos largos. Aprendem movimentos mais complicados, como abotoar botões, andar de bicicleta ou passos de dança simples, desde que lhes sejam ensinados por contacto físico, mas têm a maior dificuldade em aprender por exemplificação visual ou auditiva.

f) Compreensão deficiente da informação visual: muitas crianças têm, durante os primeiros anos de vida, deficiente compreensão da imagem visual, o que se manifesta por apreciação e interpretação tardias de imagens, dificuldade em reconhecer objetos ou pessoas a mais de dez metros, dificuldade em encontrar um brinquedo que caiu mas ficou imóvel, mas que é imediatamente detectado se o adulto, disfarçadamente o põe em movimento.

Muitos pais contam que os filhos olham apara a televisão e apara as imagens de forma a que esses objetos fiquem lateralmente em relação ao centro do campo visual. Movem-se bem em locais muito iluminados e descem escadas olhando em frente e não para baixo; gostam de se colocar de forma a que o foco luminoso atinja a periferia do campo visual e de agitar a mão entre eles e o foco, com movimentos alternados de pronação e supinação.

Aparentemente, estas deficiências não dependem de defeito do globo ocular, pois com a idade verifica-se terem, geralmente muito boa visão.

Estes fatos são hoje interpretados, admitindo que as crianças autistas têm, durante os primeiros aos de vida, predomínio da visão periférica e que parecem incapazes de interpretar a informação visual proveniente da parte central da retina. Com a idade esta deficiência tende a corrigir-se espontaneamente.

A criança parece evitar olhar de frente para as pessoas e dá a impressão de olhar através delas, lançando de longe em longe olhares rápidos sobre elas ou sobre os objetos que lhe interessam. Este comportamento alterado mantém-se mesmo depois da correção do déficit apontado e carece de correção pedagógica competente, prolongada e paciente.

g) Uso dos sentidos proximais: muitas crianças autistas assemelham-se às crianças parcialmente surdas, pela forma como exploram o mundo com os sentidos proximais, isto é, o tacto, o cheiro, o gosto e ainda pelo movimento, apesar destas preferências e da aparente perfeição das respectivas percepção e apercepção, muitas crianças mostram-se insensíveis à temperatura e à dor. Mais tarde abandonam esta indiferença e podem mostrar-se particularmente hipersensíveis ao desconforto.

h) Dificuldade na compreensão e uso de gestos: a falta de compreensão da linguagem gestual constitui um aspecto extremamente importante do síndrome autista e ao qual só muito recentemente se atribuiu o seu verdadeiro valor. Esta deficiência adicional significa que a criança autista fica privada de quase todos os meios de comunicação com os que o rodeiam. Os autistas são tardios em apontar para objetos, mesmo quando muito desejados. Quando tentam apontar, movem o membro superior de forma vaga sem indicação precisa do que pretendem e sem o indicador estendido e bem apontado.

Quando a criança autista deseja qualquer coisa faz todo o possível para a obter pelos seus próprios meios, se não o conseguir, usa para o efeito a mão do adulto, como se de um objeto se tratasse, pegando-lhe pelo dorso ou pelo pulso e não palma contra palma, como faria qualquer criança normal.

A compreensão gestual desenvolve-se lentamente e precede geralmente a da linguagem verbal, o que, dado o hábito de acompanhar ordens com gestos, pode dar a impressão que a compreensão da fala é superior à real.

i) O coeficiente de inteligência: nos primeiros anos depois da identificação do síndrome, julgou-se que a doença só aparecia em indivíduos com coeficiente de inteligência elevado. O conhecimento e estudo de um maior número de casos desfez essa impressão original. Na realidade, se por um lado, têm-se observado doentes com um coeficiente de inteligência, atingindo em casos raros 120, verificou-se haver todos os níveis de inteligência. Em 40% o coeficiente é inferior a 50 e só apenas em 11% dos casos é superior a 90. A realização dos testes para a sua determinação é particularmente difícil e exige pessoal altamente qualificado. A sua importância é básica para o prognóstico. Os testes habitualmente usados são: Merril-Palmer, Binet, Vineland, Wisc Full Scale, Wisc Verbal Scale e Wisc Perfomance scale.

j) Alterações neurológicas: há muito que se apontam a hipercinésia e a hipocinésia como fenômenos frequentes nas crianças autistas, sobretudo durante a primeira infância. Com a idade e atividade tende a diminuir, sendo frequente a hipocinésia a partir da adolescência. Durante os primeiros anos de vida o passo e a corrida são rígidos, sem qualquer flexibilidade, embora haja algumas crianças muito graciosas nos seus movimentos espontâneos.

Contudo, mesmo estas tornam-se rígidas e desajeitadas quando executam movimentos comandados. Estas características passam em geral completamente desapercebidas na observação em consultório, sendo necessária a observação em espaços livres, de preferência jardins. Com a idade estas características diminuem.

Em regra o exame neurológico não revela, nos primeiros anos de vida, alteração marcada, à parte as que acabei de indicar e o déficit da deglutição; no entanto, quando se seguem as crianças durante anos, vão aparecendo alterações em percentagem significativa; 12 a 20% têm alterações do eletro encefalograma (EEG) de caráter comercial.

Termos Médicos

Termos Médicos

Autismo atípico – as pessoas com autismo atípico não partilham todas as duas principais áreas de dificuldade. O autismo atípico pode não ser detectado antes dos três anos de idade.

Autismo clássico/Síndrome de Kanner – outro nome para designar o autismo.

Diagnóstico – a identificação do autismo, habitualmente por um profissional da área da saúde.

Dislexia – este estado causa dificuldades na aprendizagem da leitura, da escrita e da ortografia.

Ecolalia – repetição de palavras que acabaram de ser ditas por outras pessoas.

Pensamento inflexível – ter padrões rígidos de pensamento; dificuldade em compreender pontos de vista, novas idéias e conceitos abrangentes.

Autismo de alto nível funcional – o mesmo que Síndrome de Asperger, mas com atraso no desenvolvimento da fala.

Perturbação Semântica Programática – dificuldades com interação social e com linguagem, mas não com o pensamento imaginativo. Este termo não é comum no Reino Unido, e no Brasil e Portugal.

Interação social – comunicar-se com outras pessoas e reagir a elas numa grande variedade de situações sociais.

Regras sociais – formas aceitas de comportamento em diferentes situações, tais como a escola, o lar e o trabalho.

Espectro – as pessoas com autismo são afetadas pelo seu estado em diferentes graus, assim o autismo é conhecido como um estado de espectro que vai desde o autismo de baixo funcionamento ou autismo de alto funcionamento (o mesmo que Síndrome de Asperger).

Tríade de dificuldades qualitativas – as três principais dificuldades que as pessoas com autismo têm.

Apoio visual – imagens, fotografias ou materiais escritos que ajudem à compreensão.