
A SINTOMATOLOGIA DO AUTISMO PRECOCE INFANTIL
A sintomatologia do A.P.I. varia consideravelmente de caso para caso, podendo afirmar-se , não haver dois casos totalmente sobreponíveis. O A.P.I. predomina no sexo masculino e o seu diagnóstico só muito raramente é feito antes dos 2 anos. Contudo, a história cuidadosa do comportamento anterior permites verificar retrospectivamente alterações na maior parte dos casos. As mais importantes são as relacionadas com a alimentação. Algumas crianças têm a maior dificuldade em se alimentarem devido a movimentos deficientes da deglutição, pelo que, em casos raros, foi necessária a intubação por total impossibilidade de manter as crianças vivas por outros meios. Na maior parte dos casos, apesar da dificuldade na sucção e deglutição conseguem alimentar-se devido aos cuidados constantes e intensos das mães. Esta sintomatologia melhora e eventualmente desaparece, entre os 3 e os 4 meses de idade. Por vezes persiste, mantendo-se ainda na idade escolar, observando-se movimentos anormais de deglutição, o que em alguns casos não condiciona alteração do tipo de alimentação, mas noutros leva à recusa de alimentação sólida.
Alguns bebês autistas são anormalmente calmos e não exigentes, não chorando nem mesmo quanto têm necessidade de alimentação, enquanto outros são anormalmente difíceis, com hábitos irregulares de alimentação e de sono e com períodos de choro incontrolável. O seu corpo é por vezes rígido, enquanto outros permanecem molemente nos braços das mães e não reagem ao carinho maternal.
Do ano e meio em diante falta muitas vezes a curiosidade que normalmente procede o aparecimento da linguagem – a investigação do meio ambiente, dos brinquedos, dos objetos familiares, etc. Utilizam os objetos ou brinquedos diferentemente das crianças da mesma idade e aparentemente apenas pelo prazer de os manusearem. Não apontam para objetos, nem se debruçam do carrinho quando nele são conduzidos.
Inicia-se, por vezes, neste período, o hábito de se balançarem, ou de bater ritmicamente com a cabeça na parede ou num móvel e o de frequentemente arranharem superfícies ásperas, aparentemente para apreciarem o som resultante.
Os marcos do desenvolvimento motor são normais ou pouco atrasados, excepto quando há alterações neurológicas relevantes. No entanto, algumas crianças só conseguem gatinhar ou andar se para tal forem ensinadas.
É frequente sorrirem e rirem na idade normal, mas estas manifestações não são, geralmente, provocadas por verem os pais, mas sim pelo contacto físico ou mediante cócegas. Muitos pais relatam que os filhos não levantam os braços antes de serem pegados ao colo, nem demonstravam qualquer interesse em serem levantados do berço. Outros contam que durante a segunda infância gritavam e choravam sem lágrimas.
Num terço dos casos os pais não notaram qualquer alteração durante a maior parte da primeira infância, cujo desenvolvimento foi aparentemente normal até surgir a mudança gradual ou súbita. Neste caso, o indício da sintomatologia pode ter sido precedido por algum acontecimento bem definido, tal como uma infecção, um acidente, ou o nascimento de um irmão.
É normalmente depois dos dois anos que o síndrome se estabelece em toda a sua extensão e gravidade. Entre os dois e os cinco anos o comportamento da criança autista é particularmente difícil.
Os elementos do síndrome podem ser divididos em dois grupos; os relacionados com os problemas subjacentes de compreensão e motores e os relacionados com o comportamento perturbado (provavelmente secundários àqueles).
1º GRUPO – DEFICIÊNCIAS PROVAVELMENTE PRIMÁRIAS
a) Resposta anormal a sons: a criança autista tem, frequentemente, resposta paradoxal a sons; ignora alguns, muitas vezes intensos; a outros reage com sofrimento o que a leva a tapar os ouvidos, a gritar e a chorar; mostra-se fascinada com certos sons, tais como a fricção de um brinquedo sobre uma superfície rugosa e pode passar horas absorvida nesta atividade.
b) Deficiências ou ausência de compreensão da linguagem verbal: a criança autista não demonstra qualquer interesse, durante os primeiros anos de vida quando se lhe dirige a palavra e não volta a cabeça quando chamada, o que leva frequentemente à suspeita de surdez. Quando se torna evidente que esta suspeita não tem fundamento, é habitual os técnicos menos informados julgarem que a criança recusa deliberadamente prestar atenção à linguagem. A compreensão da linguagem tende a aumentar lentamente com a idade e mediante ensino especializado.
Na apreciação da compreensão da criança autista mais crescida, há dois tipos de erros frequentes; um é julgar que a criança compreende menos do que realmente compreende; o outro é, naturalmente o contrário; julgar que a compreensão é quase completa mas que ela recusa deliberadamente manifestar essa compreensão. Estudos controlados provam que em cada caso particular a compreensão é superior à aparente, mas que há deficiências importantes, objetivadas por enganos no cumprimento de ordens seriadas e estruturadas. As alterações encontradas neste campo particular são muito semelhantes às observações na afasia congênita receptiva.
c) Anomalias no uso da linguagem: algumas crianças nunca adquirem qualquer linguagem e permanecem para sempre mudas. Outras iniciam a linguagem na idade adequada, a qual desenvolve-se normalmente durante meses. Pouco a pouco o progresso suspende-se e inicia-se regressão lenta, o que se manifesta pela redução das palavras polissilábicas para monossilábicas e para pronúncia mais infantil. Tornam-se pouco a pouco menos comunicativas. Posteriormente, há redução no número de palavras e mergulham lentamente no mutismo.
Em alguns destes casos a linguagem reaparece mais tarde. Por vezes não se atinge a fase de mutismo completo, mas o desenvolvimento da linguagem é extremamente lento e defeituoso. Nas crianças que adquirem alguma linguagem são frequentes os defeitos seguintes: ecolalia imediata (repetição da parte final da frase acabada de ouvir, por vezes com entoação idêntica), o que para muitas crianças constitui, para sempre a única forma de linguagem: ecolalia tardia (repetição da palavra ou frases ouvidas dias, meses ou anos, antes); linguagem telegráfica, inversão de pronomes, confusão no uso de palavras cujo significado ou cujo som sejam próximos, troca de letras nas palavras ou de palavras nas frases, linguagem metafórica, imaturidade no discurso espontâneo, (embora possa haver frases completas, usadas adequadamente, mas que foram aprendidas na totalidade por mecanismo ecolálico).
Em casos raros há progresso considerável da linguagem, a qual, porém, só em 15% atinge a normalidade. Naqueles casos, usam linguagem muito concreta e parecem incapazes de compreender as subtilezas e a variação do significado das palavras.
d) Problemas de pronúncia e entoação: embora algumas crianças tenham voz e pronúncia normais, a maioria tem alterações importantes. Em alguns casos, voz monocórdica, descrita habitualmente como voz mecânica, ou ao contrário, controlo deficiente da voz com alternância de tom rouco, tom de falsete, voz viciada, tom próximo do normal, etc. São também frequentes, oscilações da intensidade da voz, produzindo algumas sílabas gritadas e outras apenas audíveis ou mesmo inaudíveis. É muito frequente acentuação em sílabas erradas, bem como a ênfase em locais errados da frase. No conjunto a sensação é muito estranha.
e) Dificuldade em imitar movimentos finos e complicados: algumas crianças são graciosas e elegantes nos seus movimentos espontâneos, mas mais frequentemente são desajeitadas, o que é particularmente nítido quando correm em espaços abertos ou executam movimentos largos. Aprendem movimentos mais complicados, como abotoar botões, andar de bicicleta ou passos de dança simples, desde que lhes sejam ensinados por contacto físico, mas têm a maior dificuldade em aprender por exemplificação visual ou auditiva.
f) Compreensão deficiente da informação visual: muitas crianças têm, durante os primeiros anos de vida, deficiente compreensão da imagem visual, o que se manifesta por apreciação e interpretação tardias de imagens, dificuldade em reconhecer objetos ou pessoas a mais de dez metros, dificuldade em encontrar um brinquedo que caiu mas ficou imóvel, mas que é imediatamente detectado se o adulto, disfarçadamente o põe em movimento.
Muitos pais contam que os filhos olham apara a televisão e apara as imagens de forma a que esses objetos fiquem lateralmente em relação ao centro do campo visual. Movem-se bem em locais muito iluminados e descem escadas olhando em frente e não para baixo; gostam de se colocar de forma a que o foco luminoso atinja a periferia do campo visual e de agitar a mão entre eles e o foco, com movimentos alternados de pronação e supinação.
Aparentemente, estas deficiências não dependem de defeito do globo ocular, pois com a idade verifica-se terem, geralmente muito boa visão.
Estes fatos são hoje interpretados, admitindo que as crianças autistas têm, durante os primeiros aos de vida, predomínio da visão periférica e que parecem incapazes de interpretar a informação visual proveniente da parte central da retina. Com a idade esta deficiência tende a corrigir-se espontaneamente.
A criança parece evitar olhar de frente para as pessoas e dá a impressão de olhar através delas, lançando de longe em longe olhares rápidos sobre elas ou sobre os objetos que lhe interessam. Este comportamento alterado mantém-se mesmo depois da correção do déficit apontado e carece de correção pedagógica competente, prolongada e paciente.
g) Uso dos sentidos proximais: muitas crianças autistas assemelham-se às crianças parcialmente surdas, pela forma como exploram o mundo com os sentidos proximais, isto é, o tacto, o cheiro, o gosto e ainda pelo movimento, apesar destas preferências e da aparente perfeição das respectivas percepção e apercepção, muitas crianças mostram-se insensíveis à temperatura e à dor. Mais tarde abandonam esta indiferença e podem mostrar-se particularmente hipersensíveis ao desconforto.
h) Dificuldade na compreensão e uso de gestos: a falta de compreensão da linguagem gestual constitui um aspecto extremamente importante do síndrome autista e ao qual só muito recentemente se atribuiu o seu verdadeiro valor. Esta deficiência adicional significa que a criança autista fica privada de quase todos os meios de comunicação com os que o rodeiam. Os autistas são tardios em apontar para objetos, mesmo quando muito desejados. Quando tentam apontar, movem o membro superior de forma vaga sem indicação precisa do que pretendem e sem o indicador estendido e bem apontado.
Quando a criança autista deseja qualquer coisa faz todo o possível para a obter pelos seus próprios meios, se não o conseguir, usa para o efeito a mão do adulto, como se de um objeto se tratasse, pegando-lhe pelo dorso ou pelo pulso e não palma contra palma, como faria qualquer criança normal.
A compreensão gestual desenvolve-se lentamente e precede geralmente a da linguagem verbal, o que, dado o hábito de acompanhar ordens com gestos, pode dar a impressão que a compreensão da fala é superior à real.
i) O coeficiente de inteligência: nos primeiros anos depois da identificação do síndrome, julgou-se que a doença só aparecia em indivíduos com coeficiente de inteligência elevado. O conhecimento e estudo de um maior número de casos desfez essa impressão original. Na realidade, se por um lado, têm-se observado doentes com um coeficiente de inteligência, atingindo em casos raros 120, verificou-se haver todos os níveis de inteligência. Em 40% o coeficiente é inferior a 50 e só apenas em 11% dos casos é superior a 90. A realização dos testes para a sua determinação é particularmente difícil e exige pessoal altamente qualificado. A sua importância é básica para o prognóstico. Os testes habitualmente usados são: Merril-Palmer, Binet, Vineland, Wisc Full Scale, Wisc Verbal Scale e Wisc Perfomance scale.
j) Alterações neurológicas: há muito que se apontam a hipercinésia e a hipocinésia como fenômenos frequentes nas crianças autistas, sobretudo durante a primeira infância. Com a idade e atividade tende a diminuir, sendo frequente a hipocinésia a partir da adolescência. Durante os primeiros anos de vida o passo e a corrida são rígidos, sem qualquer flexibilidade, embora haja algumas crianças muito graciosas nos seus movimentos espontâneos.
Contudo, mesmo estas tornam-se rígidas e desajeitadas quando executam movimentos comandados. Estas características passam em geral completamente desapercebidas na observação em consultório, sendo necessária a observação em espaços livres, de preferência jardins. Com a idade estas características diminuem.
Em regra o exame neurológico não revela, nos primeiros anos de vida, alteração marcada, à parte as que acabei de indicar e o déficit da deglutição; no entanto, quando se seguem as crianças durante anos, vão aparecendo alterações em percentagem significativa; 12 a 20% têm alterações do eletro encefalograma (EEG) de caráter comercial.